quinta-feira, 1 de abril de 2010

DIAS DE DOR


Por alguns lúdicos dias se considerou feliz, até que se passasse a embriaguez que era estar com outro. Depois veio a ressaca, a descoberta de que era incompleta, de que não seria digna daquele ideal de felicidade criado pelos romancistas no século XIX. Foi como acordar de um sonho que nunca fora sonhado e se defrontar com o pesadelo que era a realidade. Não casaria, não teria filhos e passaria o resto de suas noites agarrada aqueles travesseiros que nem de longe lembravam o corpo dele. Havia nela a terrível sensação de não ser mais contemplada, não era mais deusa daquele que lhe fizera religião, perdera além do homem o devoto de joelhos. Não havia mais quem olhasse seu corpo como templo, todos os olhares que a ele se direcionavam eram chamas de desejo apenas, e sobre seus olhos já não pousavam olhos de profunda admiração, daqueles capazes de desnudar a alma, mas sim de luxuria. As mãos de ceda que escorregavam no rosto dele numa carícia que se assemelhava a brisa suave, agora levavam o tempo em escrever cartas que jamais seriam entregues, acompanhadas de boas goladas da bebida que tivesse mais perto. A boca dos beijos ditos de mel se tornou amarga de tanto café para que ao não dormir evitasse assim as ilusões que traziam os sonhos. Não chegou nem perto de ficar louca, a não ser pra quem viu de perto. Sentia um enorme medo daquilo que desde cedo se amigara, a solidão, que só agora causava angústia, porque só agora sabia o que era ser roubada desta e depois devolvida, como se o ladrão arrependido ao restituir o objeto condenasse a este e fosse redimido.


BY AMANDA TELES

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